GOB-MS Grande Oriente do Brasil - Mato Grosso do Sul

Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.

O ANO DE 2021: MARCO CRONOLÓGICO CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DA MAÇONARIA EM CAMPO GRANDE - MS

terça, 25 de maio de 2021 às 10h56

O ANO DE 2021: MARCO CRONOLÓGICO CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DA MAÇONARIA EM CAMPO GRANDE - MS
 

“Em memória de Vanderson Roger Favaro, obreiro da ARLS Luz de Outubro 2081, Ao Or de Campo Grande – MS”

   Gilson Rodolfo Martins i 
 

In memoriam

Neste ano, ao comemorarmos o primeiro centenário da presença da maçonaria simbólica em Campo Grande, em nome da Academia Maçônica de Letras de Mato Grosso do Sul, na introdução deste breve artigo, externamos consternados os nossos sentimentos de tristeza fraternal pela partida de quase duas dezenas de irmãos, precocemente alçados ao Oriente Eterno pela pandemia do Coronavirus.

Com saudades de todos, acentuamos a nossa gratidão pelos inestimáveis serviços por eles prestados à Ordem e à sociedade campo-grandense. Lamentavelmente, sem que possamos a todos nominar-por falta de espaço neste artigo, ficam esses ilustres irmãos aqui lembrados simbolicamente pela memória da aguda perda física e institucional, das lideranças maçônicas, Irmão Wagner Augusto Andreazzi, Sereníssimo Grão-mestre da Grande Loja Maçônica de Mato Grosso do Sul e do Irmão Jurandir Rodrigues Brito, Soberano Grão-mestre do Grande Oriente de Mato Grosso do Sul.

Às famílias e amigos desses valorosos irmãos, nossas sinceras e sentimentais condolências. Que o Grande Arquiteto do Universo os console nestes dias tão difíceis, bem como aqueles que se encontram internados ou se recuperando da gravidade dessa impactante crise na saúde pública. Estendemos esse apelo às famílias de todos aqueles não-maçons que também tiveram a vida de seus entes queridos ceifadas por tão implacável infortúnio.

A matéria nos deixou e retornou aos seus lugares de origens, mas os espíritos se reencontrarão com Deus, que os deu, e, ao Seu lado, permanecerão na paz e claridade eterna do começo de tudo.

Resumo histórico dos primeiros cem anos da Maçonaria no antigo Mato Grosso uno

Após meio milênio de existência atuando nas construções de castelos e catedrais góticas na Europa e na Terra Santa, em substituição histórica das tradicionais lojas operativas de pedreiros medievais, as origens da Maçonaria moderna remontam ao início do século XVIII, quando então, quatro lojas londrinas se uniram no dia 24 de junho de 1717 – dia de São João Batista- para constituir a Grande Loja de Londres. Durante o decorrer desse século grandes transformações ocorreram no mundo europeu e americano. Aqui destacamos entre elas o advento do pensamento iluminista, a Revolução Industrial (1750), a independência dos EUA (1776) e do Haiti (1789), a Revolução Francesa (1789) e a expansão napoleônica repercutindo seus ideais pelo Novo Mundo. A influência de tais fatores históricos moldará profundamente o século XIX.

O fenômeno da urbanização industrial na geografia europeia e americana mudou o espaço prioritário das vivências, do campo para as cidades. Estas se transformaram ao longo desse século nos cenários férteis para o pensamento racional e científico. As lojas maçônicas proliferaram pela Europa e por países do Novo Mundo americano, difundindo leituras, até então, não convencionais ou tradicionais, sobre o leque de temas e questões postas por essa nova realidade urbana, industrial e capitalista.
No Brasil não foi diferente, indícios sugeridos por fontes históricas apontam para o final do século XVIII como sendo o momento da instalação das primeiras lojas maçônicas na colônia luso/brasileira.

Considerando-se a sobreposição e contradições de interesses despertados com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, esse episódio trouxe para o Brasil a polarização cultural e geopolítica entre a Inglaterra tradicionalista e a França revolucionária. Os primórdios da Maçonaria no Brasil refletiram essa relação antagônica ideologicamente enquanto projeto político para o país: por um lado a proposta de Reino Unido Portugal-Brasil, aristocrático e absolutista que preservasse as estruturas coloniais na sociedade, por outro, o projeto de um estado/nação independente, constitucional e talvez republicano, inspirado nos moldes da República Francesa ou dos EUA. O modelo de pensamento da Maçonaria francesa se sobrepôs nas fileiras maçônicas das nascentes lojas brasileiras. Em junho de 1822 algumas lojas simbólicas do Rio de Janeiro se unem e fundam o Grande Oriente Brasílico, o qual, alguns poucos anos depois, foi renomeado como Grande Oriente do Brasil (GOB), aos moldes do Grande Oriente de França. Constituísse assim, a primeira organização maçônica em solo pátrio que possuía plena ascendência territorial no estado/país recém-fundado. Nesse período inaugural da Maçonaria no Brasil o rito maçônico adotado pelas lojas então existentes era o Moderno/francês.

Na Província de Mato Grosso, criada após a Independência, durante todo o Primeiro Reinado, as tensões e conturbações políticas e ideológicas provocadas por setores da sociedade cuiabana resistentes ao processo de independência, inviabilizaram a fundação de lojas maçônicas na área da província. Todavia, após a abdicação de D. Pedro I, em 1831, novas articulações sociais e políticas propiciaram as condições para a fundação da primeira loja na Província de Mato Grosso, em Cuiabá. Essa loja denominava-se Augusta e Respeitável Loja Simbólica “Razão”, registrada no GOB com o número 4, portanto, por esse número de registro, essa foi uma das mais antigas lojas fundadoras da Maçonaria no Brasil.

Ao longo de todo o período imperial foram fundadas na Província de Mato Grosso apenas outras cinco lojas: Estrela do Ocidente, fundada (f.) em 1871, em Cuiabá; Caridade e Silêncio, f. 1872 em Corumbá; Beneficência do Alto Paraguay, f. 1874 em Cáceres; Pharol do Norte, f. 1875 em Ladário; Luz e Ordem, f. 1884 em Diamantino. Pelas datas de fundação pode-se perceber um movimento histórico na Maçonaria mato- grossense do século XIX diretamente associado ao processo de reconstrução local da sociedade e da economia após o fim da Guerra do Paraguai (1870). Ao mesmo tempo, essa dinâmica institucional da Ordem reflete o avanço do pensamento abolicionista, liberal, positivista e republicano, crescente em hegemonia política, nas últimas décadas do século XIX. Hoje, das seis lojas acima citadas, apenas as Lojas Caridade e Silêncio e Pharol do Norte estão ativas, embora também tiveram suas atividades interrompidas por vários anos, apresentando atualmente um perfil bem distinto daqueles que nortearam sua fundação e participação nos acontecimentos de seus respectivos tempos e lugares. Ambas, hoje, estão localizadas em Mato Grosso do Sul.

A participação política e ideológica da Maçonaria no projeto republicano foi decisiva, tanto assim foi que a Proclamação da República em 1889 foi levada a cabo por um maçom, o Marechal Deodoro da Fonseca, o qual também foi Grão-mestre do GOB. Na primeira presidência da República, o vice, Marechal Floriano Peixoto, também era um maçom, Logo após a instauração da República e até o fim do período conhecido como República Velha, em 1930, foram criadas no Estado de Mato Grosso quatorze novas lojas: Amor e Ordem, f 1898 em Cáceres; Estrela do Ocidente, f. 1898 em Corumbá; Caridade e Ordem, f 1899 em Nioaque; Humanitas, f. 1899 em Santana do Parnaíba; Caridade e Luz, f. 1903 em Miranda; Luz e Verdade, f. 1905 em Bela Vista; Luz e Caridade, f. 1909 em Bela Vista; América Latina Confederada, f. 1913, em Porto Murtinho; Estrela do Sul, f. 1915 em Ponta Porã; Oriente de Maracaju, f. 1921 em Campo Grande; Amor Fraternal, f. 1923 em Aquidauana; Razão e Força, f. 1924 em Porto Murtinho; Recanto Hospitaleiro, f. 1927 em Santana do Parnaíba; Segredo e Lealdade, f. 1927 em Presidente Marques e Vale do Paraná, f. 1927 em Três Lagoas.

1921: A fundação da primeira loja maçônica em Campo Grande

A terceira década do século XX (1921 a 1930), período diretamente subsequente ao final da Primeira Guerra Mundial, tanto na Europa como na América, incluindo-se o Brasil, foi caracterizado por episódios históricos muito relevantes, específicos e inovadores. Entre outros, pode-se destacar, o crescimento econômico provocado pela reconstrução do cenário pós-guerra, internacionalização da economia, o início da “civilização do automóvel”, o início da “Era do Petróleo”, expansão do neocolonialismo, consolidação da Revolução Russa, propagação do pensamento científico/tecnológico, a eletrificação das cidades, o incremento da vida urbana noturna – Belle-époque –, surgimento do modernismo artístico/cultural, expansão dos conflitos de natureza ideológica, etc.

No Brasil, sob forte influência dos acontecimentos mundiais, assistimos à industrialização de São Paulo e, em menor escala, de algumas outras cidades onde surgiram novas estruturas sociais, tais como, o operariado e a camada dos dirigentes e proprietários industriais ou ainda uma incipiente classe média. Em decorrência dessas influências, surgem novas formas de pensar, de fazer política (tenentismo), de criar (Semana de Arte de 1922). Em um mundo que caminhava para a polarização radicalizada a Maçonaria também reflete essas tendências históricas. No ano de 1927, ocorreu a primeira grande cisão da Maçonaria brasileira, cujos reflexos se farão sentir também no então estado de Mato Grosso ainda indiviso. Lembramos aqui que foi nesse ano que se organizaram os primeiros encaminhamentos políticos e conceituais com vistas à divisão territorial do estado.

Finalizando, quando o município tinha apenas 22 anos, foi no contexto histórico e cronológico descrito acima que surgiu uma nova geração de lojas maçônicas no Brasil e em Mato Grosso, entre elas a Augusta e Respeitável Loja Simbólica “Oriente de Maracaju”, fundada no dia 22 de outubro de 1921, portanto completando 100 anos de existência no segundo semestre do corrente. Em 21 de abril de 1922, seguindo as rígidas orientações ritualísticas da Ordem, em uma cerimônia muito solene, foi lançada a Pedra Fundamental do Templo Maçônico que até os dias de hoje sedia a centenária e pioneira loja maçônica de Campo Grande. Localizado muito próximo ao ponto mais central da cidade - simbolizado pelo lugar do antigo relógio instalado no cruzamento da Avenida Afonso Pena com a Avenida Quatorze de Julho - esse edifício foi tombado como Patrimônio Histórico Estadual, testemunhando assim, para o futuro, o lugar do pensamento maçônico na edificação da cultura e sociedade campo-grandense.

i Gilson Rodolfo Martins
Membro da Academia Maçônica de Letras de MS
Cadeira 39 – Patrono
Membro da ARLS Luz de Outubro 2081 – GOB-MS
Ao Or de Campo Grande (MS)

Fonte: GOB-MS

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